Folha do Amapá

Chico Bruno

“A primeira vaia a gente não esquece”

Li no Blog dos Blogs, que o deputado federal Dr. Rosinha acusa o prefeito carioca Cesar Maia (DEM) de ser o pai das vaias dirigidas ao presidente Lula pelo público de quase cem mil espectadores presentes no Maracanã, que compraram ingressos que variavam de R$ 20 a R$ 250, para assistir a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-americanos – Rio 2007.

As vaias foram uma tragédia anunciada, pois durante o ensaio geral elas existiram em todos os momentos em que foi citado o nome do presidente Lula. Isso ninguém discute, mas querer levantar suspeição sobre as vaias dirigidas a Lula na abertura oficial é um pouco demais para o meu senso observador.

O deputado Dr. Rosinha deveria se lembrar que essa não é a primeira vaia carioca a Lula. Não custa nada lembrar ao barbudo parlamentar, que durante o velório de Leonel Brizola o presidente Lula foi saudado por uma sonora e espontânea vaia dirigida a ele por correligionários do líder gaúcho, que fez história no Rio de Janeiro.

Além disso, o deputado Dr. Rosinha deveria estar careca de saber, que desde que surgiu no cenário sindical e depois no político, o presidente Lula ficou exposto a multidões pluripartidárias em raríssimas vezes. Isso é fato, não é conversa para boi dormir.

O douto e maquiavélico deputado paranaense deveria estar preocupado é com a esponja de aço que está arranhando o teflon de Lula. O grande problema é que os lulistas e petistas sempre imaginaram que nada gruda em Lula.

Vale lembrar que frigideiras e panelas de teflon tem prazo de validade e precisam ser utilizadas corretamente, senão se desgastam antecipadamente.

Na vida tudo tem prazo de validade, inclusive na política.

A seis vaias da abertura do Pan mostram que tem muitos fatos arranhando a imagem de Lula, principalmente as más companhias e a sucessão de escândalos ocorridos em seu governo. Além disso, vale, também, lembrar ao ilustre deputado que o Rio, ainda, é a capital mais politizada do país.

O jornalista Clóvis Rossi faz uma análise perfeita do que aconteceu. Passemos a palavra ao jornalista:

“A realidade mais complexa que a lenda começa, aliás, com uma leitura menos ufanista (para o presidente) do resultado eleitoral. No primeiro turno, Lula teve 46,6 milhões em 125,9 milhões possíveis. Dá, portanto, 37%, índice ruim para uma hipotética Olimpíada de popularidade de governantes.
Significa que dois terços dos eleitores ou queriam outro presidente ou não tinham por Lula (ou por qualquer candidato) entusiasmo suficiente para movê-los a sair de casa para votar.
No segundo turno, Lula subiu para 58,2 milhões de votos, ainda assim abaixo da maioria absoluta (ficou com 46,2%). Elegeu-se porque a regra -absolutamente legítima, aliás- leva em conta apenas os votos válidos.”

É por essa análise de Rossi, que o cerimonial da Presidência da República prepara nos mínimos detalhes as aparições públicas do presidente Lula sempre em ambientes fechados e favoráveis, o que não foi o caso da abertura do Pan, um evento popular, com ingressos vendidos, portanto fora do controle dos estrategistas do Planalto.

As vaias não tornam Lula um político inpopular. Portanto, vale a pena aos seus áulicos refletir, ao invés de ficar construindo teorias conspiratórias.

Volto ao Rossi, que goza a teoria conspiratória de que “a elite comprou todos os ingressos da festa do Pan só para vaiar Lula” e arremata com ironia fina que, “em festa da Febraban ele jamais será vaiado”.

Por isso vale contar essa historinha, que publiquei no site no sábado dia 14:

Ontem, por volta das 18:00, o charmoso Adega da Velha, o botequim do Chico, um cearense típico, em Botafogo, fervilhava de clientes, como é hábito às sextas-feiras.

O pessoal do balcão entre um gole e outro do chope, mais bem tirado de Botafogo, via a cerimônia de abertura do Pan na telona de 29’, quando surgiu a primeira vaia ao presidente Lula.

A partir daí o assunto dos freqüentadores passou a ser a dita vaia. Os admiradores de Lula acusando o Cesar Maia de ter armado a vaia, já o pessoal que está puto da vida com Lula, argumentando que aquela vaia estava presa na garganta há muito tempo.

Havia uma terceira facção, que analisava o fato com mais isenção. Um dos integrantes deste grupo disse que a vaia não era contra Lula, mas contra as companhias que ele escolheu para partilhar o governo e citou nomes com Barbalho, Calheiros e Sarney, entre outros.

Vieram as segundas, a terceira, a quarta, a quinta e a sexta vaia ao presidente, que acabou pela primeira vez na história do Pan não abrindo oficialmente o Pan, tarefa que coube ao presidente do COB, Carlos Nuzmann.

Foi nesse instante, que o Rogério, simpático garçom da Adega, pediu um minuto de silêncio e proferiu a frase:

"A primeira vaia a gente nunca esquece”.

Todos deram gostosas gargalhadas e gritaram em uma só voz:

“O bom cabrito não berra, quem berra é o barril de chope quando esvazia”.

Uma cena tipicamente carioca de uma sexta-feira 13, embalada pelo chope da Brahma, uma unanimidade no Rio de Janeiro.

15 07 2007 Save in De.li.cious Diga!Você

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