Folha do Amapá

Chico Bruno

A tragédia é tão obscena, como o gesto de Garcia

Veio de onde ninguém esperava, a reação mais dura ao governo federal pela tragédia de Congonhas. O editorial da Rede Record de Televisão é um libelo. Ele resume o que está entalado na garganta da maioria da opinião pública nacional. Vale a pena ler e reler:

“Mais de 350 vidas se foram em dois acidentes aéreos em menos de um ano. Neste momento, milhares de brasileiros choram a perda de familiares e amigos. O país todo ainda está abalado por uma tragédia prevista.

Enquanto o cidadão comum sofre com o colapso aéreo, as autoridades de Brasília fazem teorias, brincam e até debocham.

Mais de dez órgãos oficiais e dezenas de empresas privadas atuam no setor. Até agora nenhuma solução para a crise. E o pior: a saída parece impossível de ser encontrada.

As centenas de vidas perdidas parecem não afetar nossas autoridades, aparentemente distantes do caos. Bem longe do desespero e da agonia que tomaram conta dos nossos aeroportos nos últimos meses.

Indignada com essa situação, a Rede Record decidiu: a partir de hoje, não disponibilizará mais passagens para nenhum dos seus executivos, artistas, jornalistas ou outros funcionários no Aeroporto de Congonhas até que tudo seja esclarecido.

É um protesto em nome dos moradores da região. Um protesto em nome de quase 200 milhões de brasileiros. Um protesto contra o descaso. Contra a falta de ação dos responsáveis.

Governo Federal, Aeronáutica, Infraero, Anac, companhias aéreas… O Brasil tem o direito de saber: de quem é a culpa? Quando toda essa tragédia vai finalmente acabar?”

Pouco antes do jornalista Celso de Freitas ler, no Jornal da Record, o forte editorial da emissora, o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, comemorou com gestos obscenos, nas dependências do Palácio do Planalto, à reportagem exibida pelo Jornal Nacional sobre o defeito no reverso da turbina direita do Airbus da TAM.

A euforia de Garcia e do assessor de imprensa Bruno Gaspar foi flagrada pela lente da câmera do cinegrafista Rafael Sobrinho, da própria Rede Globo, que exibiu a cena no Jornal da Globo.

O gesto de Garcia foi o tradicional “top-top”, aquele que é feito com a mão direita espalmada, desferindo tapinhas sobre o topo da mão esquerda, fechada de modo a compor um círculo com o indicador e o polegar.

Bruno fez o mesmo “top-top”, apenas utilizou uma outra versão gestual, levou os dois braços à frente e, com as mãos cerradas, puxou os cotovelos contra a cintura, adiantando levemente a região pélvica do tronco.

Na quarta-feira, a Infraero, tentando induzir a opinião pública ao erro, liberou o vídeo com imagens do pouso do Airbus acidentado. Uma demonstração cabal, que estava em marcha um processo de atribuir culpa pela tragédia ao comandante ou a problemas técnicos na aeronave. O governo agiu com uma rapidez que não demonstrou em dez meses de caos aéreo.

A reportagem do JN coroaria a estratégia do Planalto de tirar do colo do governo federal qualquer responsabilidade sobre a tragédia de Congonhas, daí a comemoração esdrúxula de Garcia e Bruno. Uma reação que comprova o nível de caráter da equipe de áulicos do presidente Lula, mas preocupados e com a imagem imperial do presidente, do que em resolver um problema que se arrasta por mais de dez meses.

O editorial da Rede Record contém um trecho profético:

“Enquanto o cidadão comum sofre com o colapso aéreo, as autoridades de Brasília fazem teorias, brincam e até debocham.”

Como, também, é profético um trecho da ação, que em 24 de janeiro do corrente ano, foi encaminhada à Justiça, pedindo a interdição da pista principal do Aeroporto de Congonhas, pelos procuradores Fernanda Teixeira Taubemblatt e Mário Schusterschitz da Silva Araújo:

Considerando, ainda, a inexistência das áreas de escape no aeroporto, a possibilidade de que uma dessas aeronaves deslize para fora do aeroporto, atingindo uma das avenidas que o circundam, é realmente palpável”.

E foi isso que ocorreu o Airbus A320 da TAM na noite de terça-feira, deixando a nu, que o problema existia e que as autoridades não adotaram nenhuma providência para evitar a tragédia, haja vista, que desde 1985 que o Aeroporto de Congonhas está condenado, por ser considerado um risco para milhões de vidas.

Vamos torcer para que, ao menos, dessa vez, o governo federal feche a porta arrombada pela tragédia de Congonhas, caso contrário poderemos ver um acidente com proporções muito maiores do que a de terça-feira. 

20 07 2007 Save in De.li.cious Diga!Você

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