Folha do Amapá

Chico Bruno

Na saúde pública do Amapá, se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão...

A Polícia Federal deflagrou duas operações meritórias, uma denominada Platina, desmontou uma das maiores quadrilhas internacionais de tráfico de drogas com base no Brasil, e outra Antídoto, que desmontou, mais uma vez, uma quadrilha que fraudava licitações para aquisição de medicamentos no Amapá.

A Operação Platina recebeu tratamento vip da mídia nacional. Seus resultados foram exaustivamente divulgados pela mídia. Já a Operação Antídoto foi completamente desconhecida pela imprensa. No dia da Operação, nem uma linha nos telejornais nacionais, no dia seguinte nem uma linha na mídia impressa.

Qual a razão de tratamentos distintos, para duas grandes operações da Polícia Federal. Infelizmente, a razão envolve a mesma cantilena de sempre, a Platina foi realizada no Sul Maravilha, a Antídoto na Amazônia.

Infelizmente, em nosso país a palavra integração só existe para denominar o nome de um ministério. Vivemos em um país dividido por preconceitos, no qual existem regiões de primeira classe, de segunda classe e de terceira classe. O Norte brasileiro faz da parte desta última classe.

A Operação Antídoto, realizada na cidade de Macapá, capital do Amapá, foi um raio que caiu pela terceira vez sobre a cabeça do governador do estado Waldez Góes.

O primeiro raio foi a Operação Pororoca, realizada em novembro de 2003, pela Polícia Federal. O segundo, a Operação Sanguessuga e, finalmente, o terceiro é a Operação Antídoto. Todos os três com a mesma finalidade, desmantelar uma máfia que age dentro da secretaria estadual de Saúde, de onde já foram roubados milhares de reais. 

A fraude funciona assim desde 2003: empresas participam de licitações para aquisição de medicamentos em conluio, uma apresenta preços muito abaixo dos praticados no mercado e vence a concorrência, mas só entrega 60% da mercadoria em alguns casos e em outros não entrega nada, mas servidores públicos, que participam da quadrilha, atestam o recebimento fictício da mercadoria, como se o contrato tivesse sido totalmente cumprido. Depois é só receber o dinheiro da fraude e correr para o abraço.

A Operação Antídoto prendeu piabas e piabinhas.

Entre as piabas presas estão Franklin Roberto Góes da Silva, conhecido com Frank Laranja, sobrinho do governador Waldez Góes e assessor do deputado estadual Roberto Góes, primo do governador. Com ele foram apreendidos cinco carros importados, uma moto importada e alta soma de dinheiro.

Outra piaba grande, presa pela PF, é José Gregório Ribeiro de Farias, chefe de gabinete da Secretaria Estadual de Saúde, homem de estrita confiança do grupo liderado pelo senador Gilvam Borges (PMDB-AP), com quem trabalha há bastante tempo, inclusive, durante a gestão de Giovanni Borges, irmão e suplente do senador Gilvam, na Funasa do Amapá, no primeiro governo de FHC, Gregório e mais 20 funcionários foram demitidos e respondem a processo por improbidade administrativa. Dentro da Secretaria, desde quando ali chegou, junto com o ex-secretário Abelardo Vaz em 2004, nada é decidido sem passar por ele. E tal é, ou era o poder de decisão de “Gregório”, como é mais conhecido, que ao ser anunciada e concretizada a troca no comando da saúde publica no Estado, muitas pessoas disseram: “se o Gregório continuar na chefia de gabinete isso não passa de jogo de cena do governador Waldez Góes. Não vai mudar nada e os Borges vão continuar mandando na Secretaria”. E o Gregório não saiu da chefia de gabinete.

A terceira piaba grande presa é o fiscal da Receita Federal Braz Martial Josaphat, tesoureiro das campanhas eleitorais do governador Waldez Góes em 1998, 2002 e 2006.

Foram presas ao todo 19 pessoas, entre servidores públicos, empresários e lobistas.

Enquanto os facínoras agem, milhares de pessoas penam por atendimento médico de qualidade e muitas acabam morrendo por falta de atendimento, de equipamentos e medicamentos em pleno século 21, na capital de um estado brasileiro.

Infelizmente, esses brasileirinhos que morrem por falta de uma saúde pública decente não merecem a atenção do Brasil. Está na hora do Ministério da Saúde decretar uma intervenção federal na saúde pública do Amapá. Não é possível que desde 2003 campeie o roubo aos cofres da saúde e nada seja feita para a solução do problema.

A mini-série Amazônia é uma ação meritória da Rede Globo, mas muito mais meritória seria a divulgação para o país das mazelas governamentais do Norte do Brasil.

Caso contrário, eles sairão das cadeias e continuaram a praticar os mesmos crimes.

23 03 2007 Save in De.li.cious Diga!Você

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