Folha do Amapá

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Orar é olhar para dentro de nós

Dom Pedro José Conti*

Certa vez, um humilde camponês, voltando da feira, resolveu parar para almoçar. A taberna estava cheia de pessoas. O nosso amigo encheu o prato até não caber mais e, antes da iniciar a refeição, benzeu-se e fez uma rápida oração. Os clientes sentados à mesa, ao lado, ficaram olhando tudo e um deles berrou: “Aposto que na sua casa não é todo mundo que reza tanto quanto você.” Verdade”, respondeu de pronto o camponês, “o cachorro, o porco e as galinhas não rezam, não!”.
Uma bela resposta, para quem quer se meter na vida dos outros. Na sua simplicidade, porém, lembra-nos o sentido da oração e, sobretudo, quem deveria rezar. O ser humano, hoje, anda tão atarefado, que parece não ter mais tempo para nada, menos ainda para a oração. Nem mesmo para agradecer a vida e a comida de cada dia.
Estamos perdendo o sentido de Deus nas coisas simples e importantes da vida.
Talvez corramos atrás da Igreja para um batizado ou para um enterro. Fazemos questão de aparecer, em certas ocasiões, na nossa paróquia, mas rezar? Parece mesmo coisa de crianças e de mulheres idosas. Nós, adultos, temos muitas outras coisas para fazer. Assim entupimos as nossas jornadas de bagulhos. Não sobra tempo nem para refletir e pensar um pouco. É isso mesmo.
A oração, precisa de calma e reflexão. Se parássemos um pouco para avaliar a nossa vida - essa mistura imprevisível de alegrias e de tristezas, de aborrecimentos e de sorrisos, de avanços e de esperas, de sonhos e de decepções, a oração brotaria mais facilmente do nosso coração. Estaríamos entendendo que não estamos sozinhos neste mundo, existem os outros e existe Deus. Agradecemos aos nossos amigos, por que não deveríamos agradecer a Deus? Reclamamos de quem nos atrapalhou, por que não deveríamos reclamar de Deus? Não se preocupem, Ele é bom mesmo, tem paciência, entende o nosso sufoco. Não é fofoqueiro. Com Ele podemos desabafar. Tem ombros robustos.
Ele escuta sempre e dá o seu jeito para nos responder. Orar é olhar para dentro de nós, sem mentiras e sem desculpas, para nos deixar olhar por Deus. Ele nos conhece mais do que nós mesmos. Sente compaixão porque nos ama mais do que possamos imaginar. Quem sai ganhando, por alguns momentos de oração, somos nós. Aprendemos a nos abrir, a confiar, a acreditar. A oração acalma as nossas pressas, consola o nosso espírito, afasta as tentações. A oração nos revela a nós mesmos, com as nossas misérias e as nossas grandezas, com os nossos pecados e os nossos gestos de bondade. Quando rezamos poucas palavras são suficientes, servem só para lembrar a Deus o que está acontecendo, o que sentimos e o que pedimos, com sinceridade. Não estamos querendo convencer alguém e, por isso, não precisamos de tantas explicações. Ao contrário, precisamos convencer a nós mesmos da infinita misericórdia do Pai. As situações, as dúvidas, os tropeços, mas também as vitórias, as luzes e os horizontes abertos, andam juntos com a nossa vida. Não devemos separá-los da oração. Quando rezamos, fé e vida se entrelaçam. Nós nos aproximamos de Deus e Ele caminha conosco. Feliz aquele, ou aquela, que sabe parar para rezar, nem que seja para dizer: “Obrigado, Senhor”, antes da refeição. Só não rezam o cachorro, o porco e as galinhas. Mas eles também com as suas vidas louvam ao Criador. Só nós, tão orgulhosos quão superficiais, podemos expulsar Deus do nosso coração. Ou esquecê-Lo.

*Bispo de Macapá (AP)

13 03 2007 Save in De.li.cious Diga!Você

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